Tuesday, June 30, 2009

carrego esta dor latejante nas pálpebras como na boca sorrisos perversos
vermelhos e cheios

da bruma de outros tempos 
onde éramos fogo ao invés de versos

carrego comigo baladas amargas que a trova jamais verá dedilhadas
no retumbar de uma guitarra

e na boca trago águas 
de línguas
antigas outrora sagradas.

Wednesday, June 24, 2009

talvez porque lágrimas há que não vemos e outras que os outros não vêem.
Sobre(a vida)vivemos. e em solidão nos encontramos.

Monday, March 16, 2009

ditados por ninguém que não nós.
o que quer que procuremos não se coaduna com a condição desta existência. nem mesmo um sentir que possamos julgar só nosso.
somos uma realidade abstracta dentro da filosofia do real. produtos inacabados que ninguém compra. o que quer que sejamos agora já não somos nós. foi corrompido. embora as nossas noites nos tentem enganar em utopias, somos o somatório de todas as partes partidas das quais coleccionamos os pedaços.
estamos vazios a transbordar por dentro de tudo que não nos pertence.
como fraudes de uma individualidade inexistente
numa cidade desabitada pela vida somos essa medida de tempo no qual vivemos. sem sabermos porque somos a medida
e a liberdade não é mais do que um vulto entre duas diferentes celas
nem morte ou conquista de sonho.
antes o fim de tudo isto pelo qual nos conhecemos.

Wednesday, January 28, 2009

que me resta agora senão as palavras duras
de catarses defectivas
quando o rumor do mundo se transfigura
nos meus parágrafos de silêncio

Monday, December 22, 2008

o amor é um orgasmo impossível. cercado por um quarto de quatro paredes caiadas de branco. um fim do dia onde poucas palavras custam mais que silêncios

porque me é triste falar de amor (?)

Sunday, November 23, 2008

possuo-te menos
cada vez que te possuo

e o que possuo me possui


mas volto:
“voltei sempre à cidade, depois de especulações e desvios. Paguei o bilhete. Cumpri o dever. Sou vulgar. E tudo isso são coisas que nem o suicídio cura.”

Fernando Pessoa

Tuesday, October 21, 2008

Primeiro foi o desejo (porque é sempre dele que tudo nasce). Inconsciente e profundo. O silêncio que acompanha os lábios. E horas desprovidas de tempo. Os dedos cambaleantes pelas cordas da guitarra perseguindo o caos numa desordem electrizante de dias. E o abandono do mundo.
Da catarse resta-nos a pele aderente à alma que não é a mesma do princípio. Desde que a porta se fechou para trás e nos perdemos na procura de nós próprios. Nada ousamos senão a descoberta dos abismos. Em mergulhos de fuga ao cair da noite.
Fixamos os olhares para ver de perto, palavras que nos repetem sem serem as nossas. E a viagem começa. Na lentidão dos passos que não avistam destino mas antes o que a passagem detém. Vampiros da ambição ingénua da diferença. Letárgicos trovadores de essências. Assassinos do conformismo e da usura. Nós somos o livro que devemos ter como leitura de cabeceira. Até a loucura nos entorpecer as vozes.
Porque da infância talvez ainda resistam lugares que ditem o batimento cardíaco. Átomos esquecidos entre a colisão dos olhares. Ou a matéria lasciva dos corpos.
Agora em mudos gritos se faz auscultar o que somos. Em fragmentos de sonora abstracção física.
A vida jamais foi o que era.
Aqui nos imortalizamos inacabados diante a paisagem de sons que ausentes de nós permanecem.

Wednesday, May 28, 2008

"os poemas adormeceram no desassossego da idade." - Al Berto

esgoto palavras como quem se esquece
que ainda devem de existir beijos
perdidos no fundo dos corpos

entre o silêncio da pele
e a temperatura do olhar.

Tuesday, April 15, 2008

tacteio a materialidade das formas que povoam este quarto
para compreender cada objecto.
a persiana corrida prolongando o desejo da noite e os poemas
escritos pela insónia.

a cama tépida
de um corpo que insiste em permanecer.

deambulo neste sonho onde as palavras não existem
e as pedras esperam. animadas por quem passa
e às vezes as olha. homens que desconhecem o seu próprio nome.
nómadas errantes da face escura das suas madrugadas.
a dialogar com as sombras. sem se deterem à beira da estrada.
sôfregos de fim.

e eu já não espero.
acompanhar o tempo à velocidade de horas desprovidas de vida.
regresso a mim como quem se ama. quero adormecer apenas.
para não acordar. sem sequer saber o que é a morte.

Monday, March 31, 2008

não serei eu teu
(impreciso quanto a profundidade de um vulto)

se ambos negarmos a exigência
de fluir em oposto
na extensão do corpo que nos devora

Tuesday, February 26, 2008

não direi fazer parte de uma geração, pois já não nos partilhamos como outrora. estamos na verdade cada vez mais interessados em sobreviver e a sobrevivência, essa, tem-se tornado em verdade absoluta no centro do imprevisto de unicamente existir. cada vez mais difícil. a sobrevivência representa-nos enquanto ocupamos as nossas mentes no processo do aprimoramento social, tentando convencer-nos a nós próprios que seremos a fina casta do futuro. que aquele que mais próximo de nós se ergue será o primeiro a cair a nosso lado. mas estou farto da vida pela vida. ou da existência pela existência. esgotado de procurar razões para justificar a ansiedade da minha grandeza. esgotado de pretender alcançar a impossibilidade da perfeição. e não me importa o quanto faça, o sonho morrerá no sufoco do seu respiro embrionário. (estamos definitivamente em queda, custa-me apenas sabê-lo quanto).
que faremos nós se acaso não fizermos a diferença?
amanhã, nem mesmo depois será um dia para poesia… existiremos. nestes desabafos para acreditar que vivemos. apenas. por fim. e não para sempre.

Wednesday, January 09, 2008

porque é a morte um processo gradual eis o seu primeiro sintoma:
auto-esquecimento.